Quando era rapaz
Nunca perguntei o motivo
Do percurso solitário
que vinha do abrigo do homem pobre.
Por que ziguezagueava
Como a fuga de uma fera ferida .
Agora que sou adulto
sei por que razão os ricos se perturbam
Quando reagimos
Mzi Mahola , 1949 , África do Sul
Tradução de Isaac Pereira
VÁ ANDANDO _________
Este é um blogue de artes em geral e de literatura em especial....
Quarta-feira, 30 de Maio de 2012
Sábado, 26 de Maio de 2012
Sábado, 19 de Maio de 2012
O punhal ainda quente da fera que foi morrer longe
a quem pertence
enquanto dura a tarde ?
Enquanto um carro vibra
na distância sem eco de fogo
só os cães
conhecem a geometria do silêncio
a regra ritual
no beber do gado
a quem
pertence o castelo dessa tarde ?
A quem pertence a fera o uivo o cheiro
deixado na língua da
estrada de alcatrão
onde se vê só o
viandante que pede água?
Onde vai viandante inventar
o caminho
sem encontro com a tarde?
Falta-lhe o corvo o cão fugido no desalinho da
estrada
o
desenho vivo do punhal no lenço
numa âncora que dizia
: vida te pertence
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012
Conto
Já não se está no mar :
primavera e verão
são duas sombras
a galope
sem geografia laço ou
parentesco
São fronteiras exangues sem negócio
O sol banha-se
a punhal e gráfico
cresce a velha rota deste
tempo
Tenho só um conto antigo no coração
quando a madressilva
floresce nos muros
Conto o meu conto
de cor
para que a cidade
ganhe um rasto
a tarde seja
o violino do tempo
as pedras mãos de rito
na paisagem
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
Contas por contas
I A tinta das paredes sujas
ampara o papel voado
A vida dá-se ao prazer de uma migalha
O que foi levado pelo vento pobre ?
Um segundo na gargalhada contentinha
Dos descontos e cupõezinhos
Dos descontos e cupõezinhos
Quem desconta
a raiva e não implode?
Quem ?
Quem ?
Parados o que
vemos na distraçcão_
estão ali a falar de amor com a boca cheia
é uma receita
com ovos e leite fresco
Uma estrela
pende em cada
dedo
Os anéis
desmaiam nas mãos finas
As contas
subtraem-se no papel
Negócio pequeno
o que amas ?
Estão ali a falar
de gordura magra
Com a boca aberta:
um chocolate
tem dois dentes
mas a criança
tem vinte e quatro
horas deles
È uma criança pequena
com vinte e quatro horas
de chocolates comoventes
Estão ali a falar
de incidentes inócuos
Onde só cabem policias
Um chocolate tem dois dentes
No jeito alarve
dá noticias
A rima calhou assim
polícias com notícias
Dentes com incidentes
Alguém tem nos olhos a gordura magra
Fala num monólogo
de abismo
Há hesitações
com os braços
Parenteses desiguais
e reticentes
As interrupções
tem sinais gráficos
Tudo isto é
transparente
Claro para rimar com reticente
A rima calhou
por questão de incidente
II Vejo
A fala
escreve-se com hesitações
dos braços
A mulher
tem um sinal vermelho no queixo
Uma pequena
hora de arremesso visível às
vezes
Olha dois
ferros no estandarte das colinas
Uma ponte de
linhas de aço em frente
Eis o mundo
na fala deposta na mesa
Na mesa na
gordura magra nos dois dentes
do chocolate
Da criança que tem vinte quatro
horas de chocolates
nos dois dentes do
papel nos seus dentes
corridos e demorados
Há uma vaca no chocolate da criança
com dois dentes
Tem um laço
presidencial tipo lol
diz quem passa com as contas de rosário : contadinhas
diz quem passa com as contas de rosário : contadinhas
Terça-feira, 24 de Abril de 2012
As horas morriam assim...(conto)
Eram quase nove horas da manhã, quando naquele dia frio de Março, Gininha entrou aflita na loja, Vestuário Ideal, do Senhor Saraiva e de Consolação, a filha. Vinha cansada. Ainda sem fala afastou com o pé a tranca de ferro da porta do comércio caída no chão, arredou a custo pequenos caixotes de papelão que ali estavam empilhados, saltou por cima de um mais pequeno, levou a mão ao cordel de um outro e o velho alfinete-de-ama azul que usava no relógio há mais de dezassete anos riscou-lhe o pulso.Sentiu uma dor antiga, miúdinha, levou de imediato a mão ao bolso do casaco tirou um lencito floreado. Estava aflita, cansada, como se quase dois quilómetros corridos tivessem sido intermináveis e o cuidado que lhe merecia a pressa, se não fosse anunciado se tornasse desvalido.
Numa luta com a curiosidade e a preocupação viu o Saraiva e gritou-lhe logo:
- ah, Senhor! ah Senhor Saraiva feche a porta, vá verificar o que se passa em casa de sua prima. tire-me desta certeza, convença-me de que estou errada. estive lá, o cão ladra no despachito das arrumações das traseiras da casa onde ainda há uma luz acesa.
A mulher falava, procurava com os olhos uma das cadeiras onde habitualmente se sentavam as freguesas , ia desabotoando o casaco verdão dos frios. Desafogava-se.
- estupor, estupor de mulher! pensei que era o gato a farejar as caixas, se te tivesse visto nem entrado tinhas.
O homem ficou tão sobressaltado que os óculos lhe caíram em cima dos papéis das encomendas . Perdeu a conta das peças de tecido, deu dois passos, espalmou a mão na abertura do balcão que dava para a arrecadação da casa, respirou fundo.
Por instantes, Gininha pensou que aquilo tinha sido reacção de surpresa, quis desculpar-se, pois nem medira que ele pudesse estar ali tão concentrado.
- é sua prima, Senhor Saraiva, é minha amiga, mas sua prima.
O homem caminhava em direcção à portada do balcão que ainda era longe, exaltado ia avançando e dizendo que não tardaria muita gente andasse, viesse, fosse pela voz dela que pedia coro.
quantas vezes te disse que não te quero cá .
-só vives inquietando , disse a Consolação que viera de dentro .
Gininha estava quase à porta da rua, mas ainda parou por entre os caixotes para ouvir Consolação ou para a ver melhor, ela que vivia recolhida.
- oh menina, estava aí? vá a casa de sua prima! olhe que falar assim como fala não dá brio à pessoa. vá ver o que se passa! ou já está de abalada? vai buscar o corpo do Alferes Torrinha? o corpo chega hoje, chega mesmo hoje, é?
Dito isto virou-lhe as costas, saiu , indiferente ao fraseado de Consolação que viera espreitar a rua de um e de outro lado. Não conseguia compreender o desprezo, o trato a que estava sujeita, só porque se preocupava com a amiga que agora vivia só. Então, Maria Teresa, a filha de D. Lilazinha não tinha partido para Angola, onde estava o Capitão Pascoal, o marido, na segunda comissão de serviço? Se tinha ido lá a casa, andado quase dois quilómetros para lá, regressado quase correndo para cá, isso tinha fundamento. Fora o carteiro, vinha ela de lavar umas campas no cemitério que a encontrara lhe entregara o pedido verbal da gentil senhora: havia o jardim da casa que precisava de ser cuidado, Gininha que aparecesse, ela ficaria agradecida. E assim fez! Chegou entreabriu o portão a custo, deu uma volta pelo jardim, esperou, duvidou das horas, consultou o relógio, como não obteve resposta bateu à porta várias vezes. Por momentos, achara que se tinha adiantado, D. Lilazinha dormiria ainda. Mas a surpresa de uma luz nas traseiras da casa e o nervoso ganido do cão sobressaltara-a, até a incomodara de tal forma que inquietação e incerteza se uniram repentinamente e se deslaçaram no pensamento.Viera de imediato ao portão da casa, esperançada em avistar alguém com quem pudesse partilhar a sua suspeita. Não viu ninguém, nem um carro se via de um ou outro lado da estrada. Ela estava sozinha. Não se aventuraria a arrombar portas .Pôs-se a caminho.
Agora estava ali a relatar tantas preocupações e dúvidas em frente da casa de pasto de Sertório, o galego, que tinha assistido ao desfecho da altercação com meia rede de molas nas costas. Ele olhava muito atento com a curiosidade bronca do primeiro acontecimento da manhã, ainda não satisfeita. Era melhor que ela se fosse embora, pois prezava os bons pactos de vizinhança. Mas Gininha não desistia das suas preocupações, ia avançando.
Maria Teresa talvez ficasse em África três ou cinco anos, ninguém sabia. No dia da partida mãe e filha, caladas, ao portão. O táxi demorava. A mãe puxava as golas do casaco da filha de forma a proteger-lhe o pescoço nu, a filha batucando com os pés nas malas e nos baús.
Eram quase dez horas da manhã, passavam agora alguns carros, uma vendedeira de carroça apregoava hortaliças e legumes, vinha à janela uma freguesa. Sertório, o galego , pôs-se a sapatear um cão que vinha do lado do largo municipal. Gininha foi-se indo embora, o cão passou para o outro lado da rua e veio na direcção da loja.
As primeiras freguesas chegavam à loja Vestuário Ideal.
Consolação estava nervosa: vinha ao balcão, falava , entrava na cozinha . Dividida entre o negócio da hora e a conversa com Modesta, uma rapariguita, a quem dizia dar educação e comida a troco do trabalho doméstico. A menina chegara de manhã muito cedo ,pusera-se logo, a dar relação das mulheres conhecidas e desconhecidas que estavam no largo, todas vestidas de preto. Naquela aflição de nervos, Modesta tremia e dizia que tinha frio. Lavava a louça da manhã , repetia que sentia frio.
- frio? é Inverno. vais ver, amanhã, se essas mulheres não se apercatarem têm o chefe Tomé e o subchefe Delgado à perna .A polícia è mesmo para estas coisas.
Uma freguesa entrava e perguntava: é hoje que chega o corpo do Alferes Torrinha? Lastimava a família naquela tão demorada espera, lembrava o recolhimento, o cansaço, as explicações de qualquer familiar quando vinha à rua, já a sair da loja. Consolação olhava o relógio recordava a o pai que o cortejo se formava à uma hora da tarde. A freguesa entre portas, com um embrulho debaixo do braço, afirmava que as mulheres no largo municipal diziam que o enterro se daria pelas quatro horas da tarde.
- e que sabem elas? que se reúnem por tudo e por nada, ora é por um quilo de sabão, ora é por um quilo de açúcar. – e pôs-se atendendo uma outra freguesa que ouvia silenciosamente a conversa.
Gininha já tinha chegado ao largo, já tinha entrado em vários comércios e até se tinha demorado conversando com gente que entrava e saía. Nunca havia no largo o mesmo número de mulheres, nunca eram as mesmas, iam-se embora duas, vinham três, partia uma outra e chegavam as primeiras.Todas vestidas de preto, algumas com braçadas de flores. Esperariam o Alferes? Ou haveria mais qualquer coisa?
- por todo aquele confuso ajuntamento não tarda que seja dito que a culpa é minha! dizia Gininha que continuava preocupada com D. Lilazinha, e dela notícia na vila não havia.
Uma hora juntava-se à outra, sempre monótona, triste, igual. Ouviam-se crianças á saída da escola, jurando que correriam à pedra os gatos que encontrassem nos telhados das casas, discutiam golos, planeavam brincadeiras nos arneiros já fora da vila, algumas delas batiam-se. As sirenes das fábricas prolongavam apitares. O cortejo de carros que se tinha formado à porta dos Torrinha partia em direcção a Lisboa. O Senhor Saraiva lembrava-se das preocupações de Maria Teresa, antes de se ter ido embora: D. Lilazinha dobrava afazeres domésticos, esquecia-se , enrolava grandes novelos de lã para logo os desfazer. Quanto mais escondia preocupações mais estas se viam nos cuidados. Tinha passado dias a fazer listas de haveres de viagem. Nada a filha se podia esquecer. Provavelmente não teria sido boa ideia desprezar os cuidados de Gininha. Mas aquela mulher só pressagiava a morte.
estou preocupado com a tua prima
- desabafou o Senhor Saraiva, mas aquela Gininha, o carro vencendo a rua .
- o pai não se lembra dos problemas que ela deu ao avô, dizendo que o filho era dele! adiante ,adiante
Consolação pediu ao pai que não se distraísse, poderiam perder-se do cortejo. Já a caminho da estrada que saía da vila em direcção a Lisboa encontraram Gininha e uma outra mulher. Ambas caminhavam apressadas. Gininha dizia, como depois muito se comentou na vila: quando a família falhava tinha-se de encontrar o caminho pelo nosso próprio pé ou não fosse a Senhora D. Lilazinha sua amiga de criação, na proporcional verdade do termo. Ou a maior escuridão não seria a incerteza ou um cão não ladrava ou não eram naquele dia quase dez horas da manhã
Quando chegara ao portal da casa da amiga abriu –o , forçou a porta de casa e subiu com dificuldade a escada.
- senhora, desculpe toda esta confiança, mas tenho andado temendo o pior ... .
A outra mulher ainda bateu à porta , forçou-a , entrou .. Mal entraram viram um gato cinzento miando por perto. Encontraram D. Lilazinha sentada. Tinha morrido.
Passaram muito mais tarde as carreiras dos operários a caminho do largo municipal. O sol ia morrendo ao fundo. O vento embrulhava-se em fôlego muito soprado. Regressava à vila o cortejo sem o corpo do Alferes Torrinha, as honras militares, os discursos e os morteiros finais. Na vila muita gente dispersava. Uma patrulha estava de vigia à casa de D. Lilazinha. Corria a notícia de sua morte. As mulheres do largo iam ficando, tinham braçadas de flores no colo e a custo tentavam acalmar os filhos.
No dia seguinte já não se reuniram no largo. Esperaram pelo enterro quase perto do cemitério. Vestidas de preto, nas mãos ainda as flores viçosas do dia anterior. Seguiram o cortejo, mas já no cemitério dirigiram-se para o talhão dos ditos mortos pela pátria’. A cerimónia do enterro de D. Lilazinha iniciava-se não longe dali. Gininha lavava a campa de seu menino que morrera há dezassete anos. Tinha nas mãos o relógio e o alfinete-de-ama azul. As mulheres foram-se deixando ficar. Tocava um sino. Regressavam depois à vila. Em casa da família Torrinha algumas juravam ter visto uma luz estranha na janela, enquanto outras teimavam ver essa mesma luz desaparecer por dentro dos seus próprios olhos. Estávamos em 1970 e elas haveriam de voltar ao largo, reunidas como pudessem, vigiando o que pudessem, desfazendo o que pudessem, acautelando o que pudessem aos seus heróis de papel que brincavam sob o céu de fumo das fábricas. Chorassem ou desesperassem talvez o fizessem fugir e os tivessem longe, vivendo outros sonhos e neles se demorassem vivos, embora sem regresso.
A Salgueiro Maia
Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
Sophia de Mello Breyner
respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
Sophia de Mello Breyner
Sábado, 21 de Abril de 2012
Chanson : a partir de três palavras oferecidas por uma poeta francesa
Il y a quelqu' un dans la paille du monde
Personne ne le sait
sauf toi
Il y 'a
quelqu 'un à l 'horizon
Personne ne
le voit sauf
moi
Il y a a moi et
un oiseau triste comme le monde
dans la paille lointaine
sans aucune indifférence
Il a quelqu' un sur la paille
du monde
Personne ne le sait
sauf toi
Et je
vois à l 'horizon
les
oiseaux
Où sont
les oranges la plume
Et un livre pauvre
Personne ne le sait
sauf moi
Où
sont les oiseaux
dans la paille du monde
Je
vois mille oranges
Comme
quelqu`un sans appartenance
Comme l
angoisse invisible
Personne ne le
sait sauf toi
Il a
quelqu` un dans la paille du
monde
C`est est quelqu` un de toi
et de moi
Mais il
fait froid dans
le monde
Où il y a
un oiseau noir
Noir en
hiver autrefois bleu
Comme
une orange entière
Dans les mains
perdues
Il fait très froid
au soleil
Le
matin a oublié le printemps
et parle des siècles
Aux murs
où s arrêtent les chiens
Il
ya quelqu un dans la paille du monde
Un
oiseau noir autrefois bleu
Notícias do chão
entristece ver o pássaro bicando
a sua fome frágil no jornal
entristece vê-lo fugindo ao sapato
tudo é chão desastre ou fortuna
entristece ver o pássaro embrulhado
no gráfico de perdas e de ganhos
porque não tem peso só tem asas
entristece sabê-lo caído sem trigais
quando se procura ou se abisma já ao longe
e resta no chão
voado e na voz
a cor benquista do futebol
crente
no papel a tinta pobre corre
no ar
dando ao mundo a servil
migalha
no salto é o gráfico o
ganho a usura
tudo sem
asas na aventura do pássaro
não há nada de uno nas suas asas
o mundo rege- lhe com leis caladas a
passagem
para que nem lhe seja o silêncio rasto
Subscrever:
Mensagens (Atom)



