Barra de Vídeo

Loading...

Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

A casa do pobre : poema enviado por Amélia Pais

 Quando era rapaz
 Nunca perguntei  o motivo
 Do  percurso solitário
 que vinha  do abrigo do  homem pobre.

 Por que  ziguezagueava
 Como a fuga de uma fera ferida .

 Agora que sou adulto
 sei  por que razão os ricos  se perturbam
 Quando reagimos

 Mzi  Mahola , 1949 ,  África  do Sul
 Tradução de Isaac  Pereira

Sábado, 26 de Maio de 2012

A minha sentida homenagem a Amélia Pais :26 de Maio de 2012



 Morreu  Amélia  Pais , incansável  divulgadora  de poesia , constante  na amizade , professora ,  didacta   e sobretudo  um grande ser  humano .  Inesquecível .  Inesquecível .
http://barcosflores.blogspot.pt/


Sábado, 19 de Maio de 2012


O punhal ainda quente da fera que foi morrer longe
 a  quem   pertence  enquanto dura a tarde ?

 Enquanto um carro vibra na distância sem eco de fogo
 só  os cães   conhecem a geometria  do silêncio
 a   regra  ritual  no  beber  do gado
 a  quem  pertence  o castelo  dessa tarde ? 

A quem pertence a fera o uivo o cheiro
deixado  na língua da estrada de alcatrão
onde  se   vê  só o viandante   que  pede água?  

Onde vai  viandante    inventar  o caminho 
sem   encontro com a tarde?
Falta-lhe o corvo o cão fugido no desalinho da estrada
o  desenho vivo  do punhal  no lenço
numa âncora  que dizia  : vida  te pertence


Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Conto


Já  não se está  no mar :  primavera  e verão
são  duas  sombras  a galope    
sem geografia laço  ou  parentesco
São fronteiras  exangues  sem  negócio  
O  sol  banha-se  a punhal  e gráfico
cresce   a velha rota  deste  tempo   


Tenho só  um conto antigo  no coração
quando a madressilva  floresce   nos muros  
  
Conto  o  meu conto  de cor
para  que  a cidade  ganhe  um  rasto
a  tarde  seja  o  violino  do tempo
as pedras   mãos  de rito  na paisagem  
       

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Contas por contas


I  A tinta  das  paredes  sujas
  ampara o papel  voado
 A vida dá-se ao prazer de uma migalha

 O que  foi  levado pelo vento  pobre ?

 Um segundo na gargalhada contentinha
 Dos  descontos e cupõezinhos  
 Quem desconta  a raiva  e não implode?
 Quem ?
  
 Parados  o  que vemos  na distraçcão_

 estão  ali a falar de amor  com a boca cheia
 é uma  receita   com  ovos  e leite fresco

 Uma  estrela  pende  em  cada  dedo
 Os  anéis  desmaiam  nas mãos  finas
 As contas subtraem-se  no papel

 Negócio  pequeno  o que amas ?

 Estão  ali a falar  de  gordura magra
 Com  a boca aberta:
 um  chocolate  tem dois dentes
 mas  a criança  tem  vinte e  quatro  horas  deles

 È uma criança  pequena  com vinte e quatro horas 
 de  chocolates   comoventes

Estão  ali a falar  de incidentes  inócuos  
Onde  só cabem  policias   
Um chocolate   tem dois dentes
 No  jeito alarve  dá noticias

 A rima calhou  assim  polícias  com notícias
 Dentes  com incidentes
   

 Alguém   tem nos olhos a gordura  magra
 Fala   num  monólogo  de abismo  
 Há  hesitações  com os braços
 Parenteses  desiguais  e reticentes
 As  interrupções  tem sinais  gráficos
 Tudo  isto  é transparente

 Claro  para rimar com reticente
 A rima  calhou  por questão  de incidente


 II Vejo

 A fala escreve-se    com   hesitações  dos braços
 A  mulher  tem um sinal  vermelho   no queixo 
 Uma  pequena  hora de arremesso  visível  às  vezes  

 Olha   dois  ferros no estandarte  das colinas
 Uma  ponte de  linhas  de aço  em frente
 Eis  o mundo    na fala  deposta   na mesa  

 Na  mesa  na gordura magra  nos  dois dentes  do chocolate
 Da  criança que tem  vinte quatro  horas  de chocolates
 nos dois dentes  do  papel   nos seus  dentes 
 corridos  e demorados
  Há uma vaca  no chocolate da  criança  com dois  dentes
 Tem  um laço  presidencial  tipo  lol
 diz  quem passa  com as contas  de rosário : contadinhas 





Terça-feira, 24 de Abril de 2012

As horas morriam assim...(conto)


Eram quase nove horas da manhã, quando naquele dia frio de Março, Gininha entrou aflita na loja, Vestuário Ideal, do Senhor Saraiva e de Consolação, a filha. Vinha cansada. Ainda sem fala afastou com o pé a tranca de ferro da porta do comércio caída no chão, arredou a custo pequenos caixotes de papelão que ali estavam empilhados, saltou por cima de um mais pequeno, levou a mão ao cordel de um outro e o velho alfinete-de-ama azul que usava no relógio há mais de dezassete anos riscou-lhe o pulso.Sentiu uma dor antiga, miúdinha, levou de imediato a mão ao bolso do casaco tirou um lencito floreado. Estava aflita, cansada, como se quase dois quilómetros corridos tivessem sido intermináveis e o cuidado que lhe merecia a pressa, se não fosse anunciado se tornasse desvalido.
Numa luta com a curiosidade e a preocupação viu o Saraiva e gritou-lhe logo:
- ah, Senhor! ah Senhor Saraiva feche a porta, vá verificar o que se passa em casa de sua prima. tire-me desta certeza, convença-me de que estou errada. estive lá, o cão ladra no despachito das arrumações das traseiras da casa onde ainda há uma luz acesa.
A mulher falava, procurava com os olhos uma das cadeiras onde habitualmente se sentavam as freguesas , ia  desabotoando o casaco verdão dos frios. Desafogava-se.
- estupor, estupor de mulher! pensei que era o gato a farejar as caixas, se te tivesse visto nem entrado tinhas.
O homem ficou tão sobressaltado que os óculos lhe caíram em cima dos papéis das encomendas . Perdeu a conta das peças de tecido, deu dois passos, espalmou a mão na abertura do balcão que dava para a arrecadação da casa, respirou fundo.
Por instantes, Gininha pensou que aquilo tinha sido reacção de surpresa, quis desculpar-se, pois nem medira que ele pudesse estar ali tão concentrado.
- é sua prima, Senhor Saraiva, é minha amiga, mas sua prima.
O homem caminhava em direcção à portada do balcão que ainda era longe, exaltado ia avançando e dizendo que não tardaria muita gente andasse, viesse, fosse pela voz dela que pedia coro.
quantas vezes te disse que não te quero cá .
-só vives inquietando , disse a Consolação que viera de dentro .
Gininha estava quase à porta da rua, mas ainda parou por entre os caixotes para ouvir Consolação ou para a ver melhor, ela que vivia recolhida.
- oh menina, estava aí? vá a casa de sua prima! olhe que falar assim como fala não dá brio à pessoa. vá ver o que se passa! ou já está de abalada? vai buscar o corpo do Alferes Torrinha? o corpo chega hoje, chega mesmo hoje, é?
Dito isto virou-lhe as costas, saiu , indiferente ao fraseado de Consolação que viera espreitar a rua de um e de outro lado. Não conseguia compreender o desprezo, o trato a que estava sujeita, só porque se preocupava com a amiga que agora vivia só. Então, Maria Teresa, a filha de D. Lilazinha não tinha partido para Angola, onde estava o Capitão Pascoal, o marido, na segunda comissão de serviço? Se tinha ido lá a casa, andado quase dois quilómetros para lá, regressado quase correndo para cá, isso tinha fundamento. Fora o carteiro, vinha ela de lavar umas campas no cemitério que a encontrara lhe entregara o pedido verbal da gentil senhora: havia o jardim da casa que precisava de ser cuidado, Gininha que aparecesse, ela ficaria agradecida. E assim fez! Chegou entreabriu o portão a custo, deu uma volta pelo jardim, esperou, duvidou das horas, consultou o relógio, como não obteve resposta bateu à porta várias vezes. Por momentos, achara que se tinha adiantado, D. Lilazinha dormiria ainda. Mas a surpresa de uma luz nas traseiras da casa e o nervoso ganido do cão sobressaltara-a, até a incomodara de tal forma que inquietação e incerteza se uniram repentinamente e se deslaçaram no pensamento.Viera de imediato ao portão da casa, esperançada em avistar alguém com quem pudesse partilhar a sua suspeita. Não viu ninguém, nem um carro se via de um ou outro lado da estrada. Ela estava sozinha. Não se aventuraria a arrombar portas .Pôs-se a caminho.
Agora estava ali a relatar tantas preocupações e dúvidas em frente da casa de pasto de Sertório, o galego, que tinha assistido ao desfecho da altercação com meia rede de molas nas costas. Ele olhava muito atento com a curiosidade bronca do primeiro acontecimento da manhã, ainda não satisfeita. Era melhor que ela se fosse embora, pois prezava os bons pactos de vizinhança. Mas Gininha não desistia das suas preocupações, ia avançando.
Maria Teresa talvez ficasse em África três ou cinco anos, ninguém sabia. No dia da partida mãe e filha, caladas, ao portão. O táxi demorava. A mãe puxava as golas do casaco da filha de forma a proteger-lhe o pescoço nu, a filha batucando com os pés nas malas e nos baús.
Eram quase dez horas da manhã, passavam agora alguns carros, uma vendedeira de carroça apregoava hortaliças e legumes, vinha à janela uma freguesa. Sertório, o galego , pôs-se a sapatear um cão que vinha do lado do largo municipal. Gininha foi-se indo embora, o cão passou para o outro lado da rua e veio na direcção da loja.
As primeiras freguesas chegavam à loja Vestuário Ideal.
Consolação estava nervosa: vinha ao balcão, falava , entrava na cozinha . Dividida entre o negócio da hora e a conversa com Modesta, uma rapariguita, a quem dizia dar educação e comida a troco do trabalho doméstico. A menina chegara de manhã muito cedo ,pusera-se logo, a dar relação das mulheres conhecidas e desconhecidas que estavam no largo, todas vestidas de preto. Naquela aflição de nervos, Modesta tremia e dizia que tinha frio. Lavava a louça da manhã , repetia que sentia frio.
- frio? é Inverno. vais ver, amanhã, se essas mulheres não se apercatarem têm o chefe Tomé e o subchefe Delgado à perna .A polícia è mesmo para estas coisas.
Uma freguesa entrava e perguntava: é hoje que chega o corpo do Alferes Torrinha? Lastimava a família naquela tão demorada espera, lembrava o recolhimento, o cansaço, as explicações de qualquer familiar quando vinha à rua, já a sair da loja. Consolação olhava o relógio recordava a o pai que o cortejo se formava à uma hora da tarde. A freguesa entre portas, com um embrulho debaixo do braço, afirmava que as mulheres no largo municipal diziam que o enterro se daria pelas quatro horas da tarde.
- e que sabem elas? que se reúnem por tudo e por nada, ora é por um quilo de sabão, ora é por um quilo de açúcar. – e pôs-se atendendo uma outra freguesa que ouvia silenciosamente a conversa.
Gininha já tinha chegado ao largo, já tinha entrado em vários comércios e até se tinha demorado conversando com gente que entrava e saía. Nunca havia no largo o mesmo número de mulheres, nunca eram as mesmas, iam-se embora duas, vinham três, partia uma outra e chegavam as primeiras.Todas vestidas de preto, algumas com braçadas de flores. Esperariam o Alferes? Ou haveria mais qualquer coisa?
- por todo aquele confuso ajuntamento não tarda que seja dito que a culpa é minha! dizia Gininha que continuava preocupada com D. Lilazinha, e dela notícia na vila não havia.
Uma hora juntava-se à outra, sempre monótona, triste, igual. Ouviam-se crianças á saída da escola, jurando que correriam à pedra os gatos que encontrassem nos telhados das casas, discutiam golos, planeavam brincadeiras nos arneiros já fora da vila, algumas delas batiam-se. As sirenes das fábricas prolongavam apitares. O cortejo de carros que se tinha formado à porta dos Torrinha partia em direcção a Lisboa. O Senhor Saraiva lembrava-se das preocupações de Maria Teresa, antes de se ter ido embora: D. Lilazinha dobrava afazeres domésticos, esquecia-se , enrolava grandes novelos de lã para logo os desfazer. Quanto mais escondia preocupações mais estas se viam nos cuidados. Tinha passado dias a fazer listas de haveres de viagem. Nada a filha se podia esquecer. Provavelmente não teria sido boa ideia desprezar os cuidados de Gininha. Mas aquela mulher só pressagiava a morte.
estou preocupado com a tua prima
- desabafou o Senhor Saraiva, mas aquela Gininha, o carro vencendo a rua .
- o pai não se lembra dos problemas que ela deu ao avô, dizendo que o filho era dele! adiante ,adiante
Consolação pediu ao pai que não se distraísse, poderiam perder-se do cortejo. Já a caminho da estrada que saía da vila em direcção a Lisboa encontraram Gininha e uma outra mulher. Ambas caminhavam apressadas. Gininha dizia, como depois muito se comentou na vila: quando a família falhava tinha-se de encontrar o caminho pelo nosso próprio pé ou não fosse a Senhora D. Lilazinha sua amiga de criação, na proporcional verdade do termo. Ou a maior escuridão não seria a incerteza ou um cão não ladrava ou não eram naquele dia quase dez horas da manhã
Quando chegara ao portal da casa da amiga abriu –o , forçou a porta de casa e subiu com dificuldade a escada.
- senhora, desculpe toda esta confiança, mas tenho andado temendo o pior ... .
A outra mulher ainda bateu à porta , forçou-a , entrou .. Mal entraram viram um gato cinzento miando por perto. Encontraram D. Lilazinha sentada. Tinha morrido.
Passaram muito mais tarde as carreiras dos operários a caminho do largo municipal. O sol ia morrendo ao fundo. O vento embrulhava-se em fôlego muito soprado. Regressava à vila o cortejo sem o corpo do Alferes Torrinha, as honras militares, os discursos e os morteiros finais. Na vila muita gente dispersava. Uma patrulha estava de vigia à casa de D. Lilazinha. Corria a notícia de sua morte. As mulheres do largo iam ficando, tinham braçadas de flores no colo e a custo tentavam acalmar os filhos.
No dia seguinte já não se reuniram no largo. Esperaram pelo enterro quase perto do cemitério. Vestidas de preto, nas mãos ainda as flores viçosas do dia anterior. Seguiram o cortejo, mas já no cemitério dirigiram-se para o talhão dos ditos mortos pela pátria’. A cerimónia do enterro de D. Lilazinha iniciava-se não longe dali. Gininha lavava a campa de seu menino que morrera há dezassete anos. Tinha nas mãos o relógio e o alfinete-de-ama azul. As mulheres foram-se deixando ficar. Tocava um sino. Regressavam depois à vila. Em casa da família Torrinha algumas juravam ter visto uma luz estranha na janela, enquanto outras teimavam ver essa mesma luz desaparecer por dentro dos seus próprios olhos. Estávamos em 1970 e elas haveriam de voltar ao largo, reunidas como pudessem, vigiando o que pudessem, desfazendo o que pudessem, acautelando o que pudessem aos seus heróis de papel que brincavam sob o céu de fumo das fábricas. Chorassem ou desesperassem talvez o fizessem fugir e os tivessem longe, vivendo outros sonhos e neles se demorassem vivos, embora sem regresso.

Cravos vermelhos para Miguel Portas

 


A Salgueiro Maia

 Aquele que na hora da vitória
 respeitou  o vencido
 Aquele que deu tudo e não pediu a paga
 Aquele  que na hora da ganância   perdeu o apetite
 Aquele  que amou os outros e por isso
 Não colaborou  com a sua ignorância ou vício
 Aquele  que foi «Fiel à palavra dada  à ideia tida»
 Como  antes  dele  mas também por  ele
 Pessoa  disse

 Sophia de Mello Breyner

Sábado, 21 de Abril de 2012

Chanson : a partir de três palavras oferecidas por uma poeta francesa


Il  y   a  quelqu' un dans  la paille du monde
 Personne ne   le sait  sauf   toi
 Il y 'a   quelqu  'un     à  l 'horizon
 Personne ne  le  voit  sauf    moi

 Il  y a   a  moi  et un oiseau  triste  comme le monde
dans  la  paille   lointaine  sans aucune  indifférence

 Il   a  quelqu'  un  sur  la paille  du  monde
 Personne ne   le sait  sauf  toi  
 Et  je vois   à  l 'horizon  les  oiseaux
 Où  sont les oranges  la plume 
Et  un  livre pauvre

 Personne ne   le sait  sauf  moi
  Où  sont   les  oiseaux  dans   la paille  du monde

 Je  vois  mille   oranges 
 Comme  quelqu`un  sans appartenance  
Comme l angoisse  invisible
 Personne  ne  le sait  sauf  toi   

  Il  a  quelqu` un  dans la paille  du  monde
  C`est  est  quelqu` un de  toi et de moi   

 Mais  il  fait froid   dans  le  monde
  Où il y a   un oiseau  noir
 Noir   en  hiver  autrefois   bleu
 Comme   une  orange  entière
Dans  les mains  perdues

 Il fait très   froid  au  soleil
 Le  matin  a oublié  le printemps  et  parle des siècles 
 Aux   murs   où s arrêtent  les chiens 

 Il  ya  quelqu un  dans la paille  du monde
 Un  oiseau   noir autrefois  bleu




 Notícias  do chão
        
entristece  ver  o pássaro  bicando
a  sua fome  frágil  no  jornal
entristece  vê-lo  fugindo ao sapato
tudo  é  chão  desastre  ou  fortuna
                             
entristece  ver  o  pássaro   embrulhado
no gráfico  de  perdas  e de ganhos
porque   não tem peso  só tem asas  

entristece  sabê-lo   caído   sem  trigais
quando  se procura ou se  abisma já ao  longe
e resta  no chão  voado  e na voz  
a  cor   benquista  do futebol  crente

 no papel  a  tinta  pobre  corre  no  ar
 dando ao  mundo   a   servil  migalha
 no  salto  é o gráfico   o  ganho  a usura  
 tudo  sem  asas  na  aventura  do  pássaro
   
 não  há nada  de uno   nas suas asas
 o  mundo rege- lhe com leis  caladas  a passagem
 para  que  nem  lhe seja o silêncio  rasto